‘Fevereiro Laranja’: leucemias são como atropelamentos, possuem tratamento e cura

De jaqueline

Por Dr. José Francisco Comenalli Marques Junior (*)

A palavra leucemia, quando pronunciada, tanto durante uma consulta médica quanto em uma conversa informal, logicamente causa sensação de ansiedade e, muitas vezes, até pânico! E não é para menos, visto que remete ao conceito de uma doença grave e muito comentada em novelas, filmes, livros etc. Mas, na realidade, qual deveria ser o entendimento desse grupo de doenças que muitas pessoas acreditam que seja uma sentença de morte?

Na minha prática diária da hematologia, iniciada em 1985 (portanto, há 37 anos), costumo fazer uma analogia entre leucemias e atropelamentos. Atropelamentos podem ser causados por trem, caminhão, carro, bicicleta etc.; cada um com suas consequências características, desde fatais a um leve arranhão. Leucemias, também.

Primeiramente, vale ressaltar que as leucemias consistem em um grupo de doenças, cuja classificação se dá pelo tipo de célula envolvida em uma proliferação descontrolada e que ocupa o lugar do crescimento das células normais do nosso sangue. A palavra leucemia vem do grego, juntando leukos (branco) e hemia (sangue), significando, portanto, aumento de glóbulos brancos no sangue.

Para entendermos um pouco melhor, é preciso dizer que as células do sangue são produzidas dentro dos nossos ossos, em um órgão chamado medula óssea, e consistem em três linhagens ou séries: os glóbulos vermelhos, que nos dá energia; os glóbulos brancos, que nos dá imunidade; e as plaquetas, que ajudam no nosso processo de coagulação, evitando hemorragias. Quando um glóbulo branco, ou seus precursores, crescem de forma descontrolada ou deixam de morrer na época programada, eles podem se acumular na medula óssea ou no sangue, impedindo que as células normais sejam produzidas e causando os sinais e sintomas clássicos das leucemias, que são: anemia, fraqueza e palidez pela falta de glóbulos vermelhos; febre e infecções de repetição por falta de glóbulos brancos ou por sua função prejudicada; e sangramentos e manchas roxas na pele pela falta de plaquetas.

Porém, como já dito, não é uma patologia específica, mas, sim, um grupo de doenças que pode ser classificado de acordo com o tipo de célula envolvida na proliferação e, também, da origem da linhagem celular doente. Desta forma, podemos classificar as leucemias conforme a origem das células em mieloides ou linfoides e, dependendo da idade e comportamento delas, em leucemias agudas (envolvendo células mais jovens e com proliferação rápida) ou crônicas (quando se trata de células mais maduras e com proliferação mais lenta).

As leucemias agudas são geralmente as mais graves e exigem tratamento mais intenso, com quimioterapias e, muitas vezes, até transplante de medula óssea. As crônicas geralmente são mais insidiosas, com tratamentos mais brandos e evolução mais arrastada, e, em algumas situações, sequer necessitam de tratamento, imediato ou tardio, bastando somente observação e atenção a sinais que possam exigir interposições terapêuticas específicas. Porém, durante a sua evolução, podem agudizar, exigindo intervenções mais agressivas.

Atualmente, alçamos muito sucesso no tratamento das leucemias, chegando a altos índices de cura, sendo que, em vários tipos, a sobrevida é praticamente igual à das pessoas sem a doença e, o mais importante, com qualidade de vida muito próxima do normal. Isso se deve a métodos específicos para cada tipo de leucemia, com administração de quimioterapias, tratamento-alvo (isto é, direcionado ao exato tipo de célula ou mutação envolvida), até as intervenções mais radicais, que são os transplantes de medula óssea.

Tal procedimento pode ser feito do paciente para ele mesmo, o qual denominamos “transplante autólogo”, ou envolver um doador, o “transplante alogênico”. Quando é alguém da família (irmão, pai, mãe, por exemplo), chamamos de “transplante alogênico aparentado”. Quando isso não é possível, é necessário procurar um doador no banco nacional ou internacional, uma rede com arquivos de exames específicos de doadores para se caracterizar uma compatibilidade HLA, isto é, uma identidade imunológica que permite o transplante sem rejeição que inviabilize a permanência da medula no paciente. Muitos precisam desses doadores, pois é a chance de conseguir a cura ou o controle da sua doença, o que justifica campanhas para se ter cada vez mais pessoas cadastradas e com exames prontos para quando um paciente precisar.

Aqueles que se propõem a doar devem procurar um hemocentro da rede pública para se cadastrar e colher uma amostra de sangue. É simples, fácil e uma ótima oportunidade de realizar um ato nobre, salvando a vida de outra pessoa.

Atualmente, todos os tipos de leucemia são controláveis e até curáveis com tratamentos específicos, oferecendo sobrevidas longas e com qualidade.

(*) Dr. José Francisco Comenalli Marques Junior é médico hematologista do Vera Cruz Oncologia

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