Setembro Amarelo: especialistas explicam de que forma os ambientes residenciais e comerciais podem interferir na saúde mental

De jaqueline

Arquitetas destacam os benefícios da “neuroarquitetura” nos projetos para auxílio da prevenção de distúrbios psicológicos

Criado em 2014 pela Associação Brasileira de Psiquiatria — ABP, em parceria com o Conselho Federal de Medicina — CFM, o Setembro Amarelo é uma campanha nacional que integra as ações globais de prevenção ao suicídio, ato que, entre outros fatores mentais e comportamentais, pode ser causado por transtornos psicológicos como ansiedadedepressão e insônia.

Especialista em neurociência — campo científico que estuda o sistema nervoso e suas funcionalidades –, a arquiteta e urbanista Priscilla Bencke, cofundadora da Academia Brasileira de Neurociência e Arquitetura – NEUROARQ® Academy, empresa de educação especializada na formação de profissionais e disseminação da neurociência aplicada à arquitetura,também conhecida como “neuroarquitetura” – explica que tais transtornos, causados por questões como estresse, dificuldades financeiras, entre outras, podem também ter interferência dos ambientes físicos onde indivíduos vivem e fazem suas principais atividades.

A neurociência aplicada à arquitetura estuda a relação da arquitetura e bem-estar de quem habita os ambientes ao aplicar conceitos da neurociência em seu design. Como os ambientes em que vivemos impacta na nossa saúde física e mental, é possível criar projetos inteligentes que elevam a qualidade de vida de quem os ocupa.

No Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, lembrado em 10 de setembro, especialistas explicam de que forma a “neuroarquitetura” pode auxiliar na diminuição de sintomas e transtornos. “Por meio da neurociência aplicada à arquitetura, buscamos contribuir na criação de ambientes mais saudáveis. Estes, por sua vez, podem incentivar hábitos e um estilo de vida mais positivo para que as pessoas não tenham intensificações de questões relacionadas a transtornos mentais e comportamentais”, explica Priscilla Bencke.

Ambientes físicos x comportamento humano

Integrante do time de docentes da NEUROARQ® Academy, a neuropsicóloga Cinara Soares explica a ligação das pessoas com os ambientes e demais indivíduos. “O ser humano é movido por relacionamentos e interação. Seja com as outras pessoas, ou os lugares onde exercemos nossas atividades. Neste sentido, essa interação com seu meio, e espaço em toda a sua constituição, fará parte da sua estruturação como sujeito, afetando sua saúde de maneira geral”, afirma.

Para a arquiteta e cofundadora da NEUROARQ® AcademyGabi Sartori, ao falar do impacto dos ambientes na saúde mental, é necessário avaliar as condições destes espaços de modo geral. Conforme a especialista, o ambiente, em especial, o residencial, nada mais é, senão um reflexo das pessoas que o ocupam. “A depender do momento de vida do indivíduo, dos pensamentos que ele tem e da forma como organiza seus pensamentos e mente, o espaço irá refletir quem nós realmente somos”, explica.

De acordo com Gabi, a partir do momento em que as pessoas têm consciência do impacto dos ambientes em suas vidas, é possível utilizá-lo como instrumento para mudanças de comportamento.

Priscilla complementa dizendo que o ambiente físico, no entanto, não é capaz de resolver todos os problemas e questões de comportamento humano. “Existem infinitas variáveis que definem nosso comportamento, e o ambiente é apenas uma delas.”

Desenvolvendo ambientes saudáveis

Membro do corpo docente da NEUROARQ, o professor canadense Tye Farrow, especialista em arquitetura para área da saúde, defende que não existe ambiente neutro. Para ele, os espaços sempre influenciam as pessoas que o ocupam positiva ou negativamente.

Gabi defende que um exercício importante a se fazer é refletir sobre como os lugares ocupados podem interferir na saúde mental. “Devemos sempre nos questionar se eles reforçam hábitos não saudáveis”, observa.

A arquiteta afirma que o conceito se expande no âmbito corporativo, os espaços de uma empresa têm o poder de interferir tanto na saúde mental, como física dos colaboradores.

“Seja a partir da ergonomia que utilizam no seu mobiliário, na iluminação correta que pode auxiliar no ciclo circadiano — que é a variação nas funções biológicas de diversos seres vivos, repetidas regularmente ao longo de 24 horas — e até na interação social desses seres.”

Para Priscilla, além de ações de bem-estar mental e apoio psicológico aos colaboradores, ambos consideravelmente importantes para o momento atual, as empresas deveriam investir na incorporação de intervenções em suas dependências físicas.

“Quando falamos em desafios relacionados a problemas comportamentais e mentais dos colaboradores, que são pessoas únicas e diversas, devemos pensar que tanto as ações que envolvam a prevenção psicológica, quanto as intervenções nos ambientes físicos, têm seu peso e importância.”

Benefícios da neurociência aplicada à arquitetura

Conforme Gabi, a “neuroarquitetura” pode melhorar sintomas de ansiedade, depressão e insônia, por meio de pontos de influência que demonstram como a natureza pode auxiliar no bem-estar. Além da natureza, a neurociência aplicada à arquitetura pode utilizar de técnicas que usam formas, cores e iluminação. “A influência positiva dos elementos naturais em nossas sensações e emoções é um tema constantemente estudado para auxiliar nos tratamentos desses transtornos”, reitera.

Para a especialista, quanto mais os profissionais de arquitetura estudarem para quem estão projetando, com questionamentos como “quem são essas pessoas”, “do que elas sofrem” e “quais são as queixas e sintomas que elas têm”, mais será possível entender o que pode ser feito no ambiente para auxiliá-las numa melhoria.

A especialista defende que projetos com neurociência aplicada à arquitetura possuem benefícios consideráveis, ante aos que não optam pela técnica. Segundo Gabi, os ganhos são tanto para clientes, como para os profissionais.

“Enquanto os clientes se beneficiam de um projeto pensado para a fim de solucionar as suas questões pessoais e psicológicas, com elementos que impactem positivamente suas emoções e bem-estar, o arquiteto terá um briefing mais assertivo. Isso, consequentemente, reduzirá o número de revisões e readequações e, mais que isso, ele terá a satisfação de entregar àquela pessoa um projeto do qual ela se sente pertencente, incluída e abraçada a todo o momento, algo significativamente importante para a manutenção da saúde mental.”

Priscilla finaliza explicando que na prevenção de sintomas psicológicos, a neuroarquitetura pode agir de forma complementar. “É importante termos ciência que, apesar da importância do ambiente físico, ele não é capaz de sanar todas as questões do comportamento humano. Caso o indivíduo apresente quaisquer sintomas de ansiedade, estresse excessivo ou depressão, é importante buscar, o quanto antes, o apoio de um especialista que poderá auxiliá-lo no direcionamento para os melhores tratamentos.”

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