Os avanços brasileiros no tratamento de Acidente Vascular Cerebral (AVC) na saúde pública do país

De jaqueline

Aula aberta da Pós-Graduação em Neurologia Vascular da Faculdade Moinhos de Vento reuniu lideranças de estudo que incluiu novo tratamento para o AVC no SUS]

Menos chances de sequelas e menor mortalidade. Quando se fala em Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico agudo, é o que se espera do tratamento ao paciente que chega na Emergência em estado grave. E um novo tratamento poderá fazer a diferença no prognóstico de milhares de pessoas afetadas pela doença.

Trata-se da Trombectomia Mecânica, um procedimento para desobstruir e restaurar o fluxo sanguíneo arterial cerebral, usando um cateter colocado onde se formou o coágulo que entope a circulação. Essa técnica se tornou política pública, com a inclusão no Sistema Único de Saúde (SUS), a partir do estudo Resilient. Os resultados do trabalho foram abordados pelos principais pesquisadores na aula aberta da Pós-Graduação em Neurologia Vascular da Faculdade Moinhos de Vento, na noite de terça-feira (06).

O procedimento não tinha evidências suficientes para se tornar uma política de saúde no Brasil — apesar de haver estudos positivos em países desenvolvidos. Com a liderança da neurologista Sheila Ouriques Martins, chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento e presidente da Rede Brasil AVC e da World Stroke Organization (Organização Mundial de AVC), e do médico neurointervencionista Raul Nogueira, professor de neurologia e neurocirurgia da Universidade de Pittsburgh (EUA), foram realizados no Brasil os estudos Resilient e Resilient- Extend.

A pesquisa brasileira foi destaque mundial ao evidenciar importantes resultados de diminuição de sequelas por AVC isquêmico, tipo mais comum da doença, que corresponde a 80% dos casos. Além disso, reduz a mortalidade e estado vegetativo causado pelos AVCs mais graves. Atualmente, é a condição que mais causa mortes no Brasil, segundo os dados de 2022 da Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC).

Sheila se emocionou ao mostrar um vídeo do primeiro paciente atendido após a regulamentação do tratamento pelo SUS, no final do ano passado. O homem, de 38 anos, que chegou ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) em estado grave, aparece nas imagens falando perfeitamente, agradecendo aos profissionais e apresentando poucas sequelas motoras ao andar.

“É uma grande alegria e um grande orgulho poder oferecer esse tratamento para pacientes que não têm recurso de estarem em um hospital privado. Todos os pesquisadores trabalharam pela diferença que isso faria para os pacientes da saúde pública do Brasil”, ressaltou a médica.

O AVC isquêmico ocorre quando há obstrução de uma artéria, impedindo a passagem de oxigênio para células cerebrais, que acabam morrendo. O tratamento por Trombectomia Mecânica, segundo o Resilient, demonstrou eficácia para a retirada de coágulos que podem agravar o quadro. Também aumentou em três vezes a chance dos pacientes recuperarem a sua capacidade funcional — motora e de memória —, propiciando uma maior possibilidade de independência após a recuperação.

Resilient-Extend 

O ensaio Resilient-Extend foi realizado em instituições públicas de todo o país, com a coordenação do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e financiamento do Ministério da Saúde. O trabalho envolveu uma população diferente daquela incluída em outros ensaios de Trombectomia que foram realizados principalmente em países do primeiro mundo.

A pesquisa envolveu 245 pacientes com acidente vascular cerebral por oclusão de grandes vasos dentro de 8 a 24 horas após o início dos sintomas. A idade média dos pacientes incluídos foi de 62 anos, um pouco mais jovem do que a observada em outros ensaios de Trombectomia, porque em países de renda média-baixa, os AVCs ocorrem em pessoas mais jovens e têm uma taxa de letalidade mais elevada.

O Resilient-Extend é o primeiro grande estudo sobre Trombectomia no período tardio realizado fora dos países do primeiro mundo e mostra que o procedimento também traz benefícios em uma população de nível socioeconômico mais baixo, sem a necessidade de equipamentos de imagem mais caros, como ressonância magnética e perfusão por tomografia computadorizada.

“Além do legado nacional deste estudo é que não eram tratados pacientes com mais de 8h do início dos primeiros sintomas de AVC porque não havia imagem avançada, isso caiu, pelo menos em pacientes com menos de 68 anos, clarificou a situação. Agora sabemos que podemos tratar pacientes sem imagem avançada, em todas as partes do mundo. Fica a pergunta sobre o que fazer em relação aos pacientes mais velhos e mais vulneráveis em termos de serviços médicos”, elucidou Raul.

Continuidade dos estudos

O Hospital Moinhos de Vento, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), lidera a continuidade do trabalho com duas pesquisas ativas: o Resilient Direct-TNK e o Resiliente Extend-IV. São dois estudos clínicos randomizados em 13 centros de pesquisa do Brasil. A perspectiva é de incluir e acompanhar, ao todo, 1.172 pacientes em diferentes regiões do país.

O Direct-TNK está avaliando pacientes com oclusão de grande vaso que chegaram ao pronto-atendimento até 4h30 após os primeiros sintomas. O tratamento nesses casos é a Trombectomia, ou fazer trombólise (utilização de medicamento trombolítico na veia) mais Trombectomia. Cerca de 530 pacientes serão divididos em dois grupos: os que receberão o trombolítico tenecteplase (TNK) antes da Trombectomia, e os que irão direto para Trombectomia sem usar a medicação antes.

Já o Resilient Extend-IV avalia os pacientes que tenham apresentado os primeiros sintomas além das 4h30, sem oclusão do grande vaso e, portanto, não candidatos à Trombectomia — que acabam não recebendo tratamento. Para analisar a possibilidade de trombólise nestes casos, a pesquisa busca incluir 642 pacientes que derem entrada nos hospitais entre 4h30 e 12 horas após o início dos sintomas, divididos em dois grupos: um será medicado com a tenecteplase e o outro com placebo.

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